sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Clarice Lispector, A hora da estrela


Clarice Lispector

Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:
- Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?
Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara da Macabéa parecia lágrimas escorrendo.
Da terceira vez em que se encontraram – pois não é que estava chovendo? –- o rapaz, irritado e perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo lhe ensinara, disse-lhe:
- Você também só sabe mesmo é chover!
- Desculpe.

Clarice Lispector, A hora da estrela

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