domingo, 4 de novembro de 2012

Metade - Oswaldo Montenegro

METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre
amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que
resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu
mereço;
E que essa tensão que me corrói por
dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado
na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do
que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma
simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo6
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la
florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
(Oswaldo Montenegro)

domingo, 7 de outubro de 2012

PENSAR É TRANSGREDIR
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é
isso, então é assim. Apesar dos medos,
convém não ser demais fútil nem demais
acomodada. Algumas vezes é preciso pegar
o touro pelos chifres, mergulhar para
depois ver o que acontece: porque a vida
não tem de ser sorvida como uma taça que
se esvazia, mas como o jarro que se renova
a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso
aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo
que pareça uma essência: isso, mais ou
menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser,
acredito ser, quero me tornar ou já fui.
Muita inquietação por baixo das águas do
cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o
travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema
reconfortante: "Parar pra pensar, nem
pensar!"
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do
shopping, no trânsito, na frente da tevê ou
do computador. Simplesmente escovando
os dentes. Ou na hora da droga, do sexo
sem afeto, do desafeto, do rancor, da
lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra
pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um
berçário confortável para um corredor com
mil possibilidades. Cada porta, uma
escolha. Muitas vão se abrir para um nada
ou para algum absurdo. Outras, para um
jardim de promessas. Alguma, para a noite
além da cerca. Hora de tirar os disfarces,
aposentar as máscaras e reavaliar:
reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é
transgredir a ordem do superficial que nos
pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o
atordoamento das mil distrações, corremos
de um lado a outro achando que somos
grandes cumpridores de tarefas. Quando o
primeiro dever seria de vez em quando
parar e analisar: quem a gente é, o que
fazemos com a nossa vida, o tempo, os
amores. E com as obrigações também, é
claro, pois não temos sempre cinco anos
de idade, quando a prioridade absoluta é
dormir abraçado no urso de pelúcia e
prosseguir, no sono, o sonho que afinal
nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de
enfrentar a alma no espelho: é sair para as
varandas de si mesmo e olhar em torno, e
quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo
bem maior do que o nosso pequeno
segredo individual. É o poderoso ciclo da
existência. Nele todos os desastres e toda
a beleza têm significado como fases de um
processo.
Se nos escondermos num canto escuro
abafando nossos questionamentos, não
escutaremos o rumor do vento nas árvores
do mundo. Nem compreenderemos que o
prato das inevitáveis perdas pode pesar
menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da
perspectiva e possibilidades de quem vai
tecendo a sua história. O mundo em si não
tem sentido sem o nosso olhar que lhe
atribui identidade, sem o nosso
pensamento que lhe confere alguma
ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a
vida não está aí apenas para ser suportada
nem vivida, mas elaborada. Eventualmente
reprogramada. Conscientemente executada.
Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas
é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é
preciso realizar nada de espetacular, nem
desejar nada excepcional. Não é preciso
nem mesmo ser brilhante, importante,
admirado.
Para viver de verdade, pensando e
repensando a existência, para que ela
valha a pena, é preciso ser amado; e amar;
e amar-se. Ter esperança; qualquer
esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem
rebeldias insensatas mas sem demasiada
sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali
enfrentar o ruim. Suportar sem se
submeter, aceitar sem se humilhar,
entregar-se sem renunciar a si mesmo e à
possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-
se a última claridade e nada mais valerá a
pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos
enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a
cada momento, o melhor que afinal se
conseguiu fazer.
Lya Luft

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.

No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.

Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de
desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

“Havia um casal sentado no banco da praça.
Fiquei intrigado com aquela conversa... Ora riam, ora choravam... A curiosidade é algo forte em mim, pois já sou um velho que joga pão aos pombos, e os velhos são
invariavelmente curiosos...
Que surpresa eu tive ao descobrir que o jovem casal ria alto por puro prazer da companhia um do outro. Alegria tão forte que descrevo como ‘magia’. E que no momento seguinte choravam por saberem que ficariam
separados por um longo tempo... Desfecho triste? Não. Amor verdadeiro sempre vale a pena.“
Sidney Saymon

terça-feira, 4 de setembro de 2012

“Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os ajudava. Ninguém os
ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado. Por isso, cheguei a esta conclusão: aqueles que morreram são mais felizes do que os que continuam vivos. Porém mais felizes do que todos são aqueles que ainda não nasceram e que ainda não viram as injustiças que há neste mundo. Também descobri por que as pessoas se esforçam tanto para ter sucesso no seu trabalho: é
porque elas querem ser mais do que os outros. Mas tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento. Dizem que só mesmo um louco chegaria ao ponto de cruzar os
braços e passar fome até morrer. Pode ser. Mas é melhor ter pouco numa das mãos, com paz de espírito, do que estar sempre
com as duas mãos cheias de trabalho, tentando pegar o vento. Descobri que na vida existe mais uma coisa que não vale a pena: é o homem viver sozinho, sem amigos, sem filhos, sem irmãos, sempre
trabalhando e nunca satisfeito com a
riqueza que tem. Para que é que ele
trabalha tanto, deixando de aproveitar as coisas boas da vida? Isso também é ilusão, é uma triste maneira de viver. É melhor haver dois do que um, porque duas
pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais. Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se
levantar”. (Eclesiastes 4 1-8)
Salomão

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


Mascarados

Saiu o Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranqüilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.

Cora Coralina

O poema acima, inédito em livro, foi publicado pelo jornal "Folha de São Paulo" — caderno "Folha Ilustrada", edição de 04/07/2001. (http://www.releituras.com/coracoralina_mascarados.asp)



terça-feira, 29 de maio de 2012

Nada a perder  (Texto de Gabito Nunes)

Não me venha com "temos de conversar, aconteceu uma coisa". Uma coisa não simplesmente acontece. Você precisa apertar um botão pra isso tudo "simplesmente acontecer". Duas pessoas não resolvem dar uma escapulida sem antes um bom flerte, alguma negociação e um punhado de telefonemas.

Todos passam por isso, todos vivem aquele fragmento lúcido de tempo em que é necessário decidir entre resistir ou fazer a coisa - esta é diferença entre nós. Duas pessoas resolveram acontecer. Você está entre elas e é isso que dói um pouco. Outro erro grostesco na construção das suas desculpas esfarrapadas: não há mais o que conversar. Vamos evitar olhares de lamentações, desprezos e resignações.

O que você quer? Absolvição? Aplausos? Ver nos meus olhos uma ponta de dor? Que eu desague um rio de lágrimas? Correção? Desculpa entrar na brincadeira sem julgar seu acontecimento como uma mera molecagem credora de castigo. Nunca fui sua mãe e você já não é mais criança, posso afirmar, apesar da sua ingenuidade em pensar que assim a coisa soaria mais honesta. A pior ingenuidade é achar-se esperto.

Não importam os pontos já somados ou o quanto você foi legal, seremos julgados eternamente por um único e isolado e grande erro. Sinto muito, é assim que funciona. Não existe justiça nisso que chamamos de "vida". Às vezes somos resumidos por aquilo que só fizemos uma vez, se acaso aquilo que só fizemos uma vez modificar alguém para sempre.

Aliás, foi melhor? Foi bom? Me diga. Me conte. Roteirize a cena pra mim. Vamos lá, eu quero saber. Entrei no seu jogo e estou dando uma oportunidade pra você se gabar. Não desperdice. Pegue. Foi bom? Foi melhor? Espero no mínimo um sim, que tenha valido a pena, porque você pôs a perder algumas coisas que até ontem pareciam importantes. Defenda-se.

Sabe, sobre esse seu "amor" que você está dizendo. Eu posso ouvir você dizer milhares de vezes, mas não significa que uma junção de palavras vai me fazer sentir como era antes, tudo outra vez. Seria até bom se você ficasse quieto e deixasse a reputação do amor intacta. No futuro ouvirei de alguém que esse alguém me ama e quero ter um conceito melhor sobre isso.

Vamos fazer assim. Sem traumas. Sem dramas. Sem dores. Seria exagero dizer que você faz o mundo melhor. Você não é pra tanto, mal dá pro gasto. Mas que fica tolerável, não posso negar. É que... já não estamos nos falando direito mesmo, então acho que preciso aproveitar que nós dois não somos uma aposta segura a longo prazo e que também não sou assim, tão louca por você.

Nada parece fazer diferença agora e tudo indica ser uma boa hora pra largar mão disso de qualquer forma. Não é como se estivéssemos perdendo algo. Eu vou dar uma volta, refrescar as ideias. Quando eu voltar, não quero mais vê-lo aqui. Se ainda estiver, então entenderei que sou eu quem deve sair.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

"Dizer sim quando quero dizer não é dar mais valor aos outros do que a mim, é não colocar meus limites, e isso é não me respeitar.. É o mesmo que dizer que o que eu sinto não vale nada, que os ouros podem passar por cima de mim à vontade. E eles passam, sem dó nem piedade.
 Hoje estou aprendendo a dizer não. Quando não quero alguma coisa, simplesmente digo não. Sem raiva nem emoção. Um não é só uma negativa. É nosso limite. Um direito que temos de decidir o que desejamos ou não fazer. A isso se dá o nome de dignidade. Quando nos colocamos com sinceridade, dizendo o que sentimos, somos respeitados."

Zíbia Gasparetto

sexta-feira, 16 de março de 2012

"Vai sem direção
vai ser livre
A tristeza não, não resiste
Solte seus cabelos ao vento não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo no seu peito faz
Faça sua dor dançar, atenção para escutar esse movimento que trás paz
cada folha que cair, cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar o que você quer saber de verdade"

(O Que Você Quer Saber de Verdade - Arnaldo Antunes)