Ontem, o céu ganhou mais uma estrelinha.
Ele não teve tempo de apresentar aos pais a primeira namoradinha. Não tirou a primeira habilitação. Nunca saberá a sensação de ter encontrado o seu primeiro emprego. Não soube, sequer, o que é ter completado uma década de existência. Ele foi embora com apenas nove anos de idade. Ele só tinha nove, meu Deus!
Seus pais nunca mais poderão vê-lo brincar.
E dar aquela bronca por ter tirado uma nota baixa no colégio? Isso não será mais possível fazer. Ele não mais poderá mostrar aos seus pais o seu boletim com aquela nota ruim recuperada, na esparança de receber algum elogio por isso, pois seu nome nem constará mais na lista de chamada. Seus colegas não mais ouvirão o seu "presente" diariamente.
São infinitas as coisas que ele não mais poderá fazer.
Qual seria o motivo de uma vida ser interrompida tão precocemente? Que lições podemos tirar disso?
Ele apenas estava brincando, na sua ingenuidade infantil. Mas, é isso. Alguém tinha que pagar pela irresponsabilidade de adultos egoístas, negligentes, imprudentes. A culpa seria de quem? Quem permitiu que um poste, no meio de uma praça, fosse rodeado de fiações elétricas irregulares, pondo em risco a vida de crianças que ali brincavam diariamente? Por que só depois que o menino João Vítor teve sua testinha encostada fazendo com que o seu corpinho de apenas nove anos de idade fosse eletrocutado em um dia de muita chuva num lugar onde quase nunca chove é que resolveram desligar a eletricidade daquele poste? Não foi o João Vítor que colocou aquele poste ali. Ele só estava brincando. Por que ele teve que pagar por algo que não fez?
João Vítor está em um lugar bem melhor do que esse que ele deixou. Não há dúvida alguma. Lá deve haver adultos que se importam com a segurança de crianças que brincam inocentemente numa praça do bairro.
Os pais e a irmã de João Vítor nunca mais serão os mesmos. Que Deus os conforte!
Tal acontecimento é contra a lei da natureza, que impõe que os filhos é que velam os seus pais.
É por isso que a dor é bem mais forte. Foge da normalidade.
Eu, que o conhecia, mas que estava há um bom tempo sem vê-lo, fiquei apenas com a lembrança de João Vítor vindo pegar o meu Doffinho para levá-lo para passear. Preferi nem vê-lo dentro do caixãozinho, pois preferi guardar a sua imagem sorridente.
Prefiro acreditar que João Vítor, neste momento, está lá no céu, levando meu doffinho para passear.
Os olhos verdes de João Vítor se fecharam para sempre.
Um vida curta, ceifada brutalmente.
E ele só tinha nove anos.
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Homenagem a João Vítor, que foi morto (assassinado) ontem, ao ser eletrocutado em um poste de iluminação pública. O poste era de ferro e ficava numa praça onde funciona a feira do bairro. Dizem que foram os próprios feirantes que o encheram de fiações irregulares. Será que os culpados serão punidos? Ou será que será mais um caso que cairá no esquecimento de todos até que novamente venha a ocorrer para, posteriormente, ser esquecido?
A única certeza é que João Vítor morreu.
Poderia ter acontecido com o filho de qualquer um.
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